quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lugar no mundo


Pra onde fui não cabia
Não cabia a você
Nem coube a mim
Mas mesmo assim fui

E no pequeno espaço me apertei
Pois onde estava antes não me cabia
E transito entre os mundos
Procurando um que me caiba

O mundo é tão vasto
O coração é tão grande
 A mente tão aberta
Meu eu tão pequeno

O que é grande demais não me cabe
É tão vasto que me perco
Nesse jogo de perder e achar
Esqueço de me encontrar

De me encontrar
De te encontrar
De encontrar um lugar que me caiba
De me encontrar em você

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A arte de ser feliz (Cecília Meireles)



Houve um tempo em que a minha
janela se abria para um chalé.

Na porta do chalé brilhava
um grande ovo de louça azul.
Neste ovo costumava pousar
um pombo branco.

Ora, nos dias límpidos,
quando o céu ficava da mesma
cor do ovo de louça,
o pombo parecia pousado no ar.

Eu era criança,
achava essa ilusão maravilhosa e
sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha
janela dava para um canal.

No canal oscilava um barco.
Um barco carregado de flores.
Para onde iam aquelas flores?
Quem as comprava?

Em que jarra… em que sala,
diante de quem brilhavam,
na sua breve experiência?
E que mãos as tinham criado?
E que pessoas iam sorrir de
alegres ao recebê-las?

Eu não era mais criança,
porém minha alma ficava
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha
janela se abria para um terreiro,
onde uma vasta mangueira
alargava sua copa redonda.

À sombra da árvore, numa esteira,
passava quase o dia todo sentada
uma mulher, cercada de crianças.
E contava histórias.

Eu não podia ouvir, da altura da janela,
e mesmo que a ouvisse, não entenderia,
porque isso foi muito longe,
num idioma difícil.

Mas as crianças tinham tal expressão
no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que na minha janela havia um
pequeno jardim seco.

Era um tempo de estiagem,
de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre
homem com um balde e em silêncio,
ia atirando com a mão umas gotas
de água sobre as plantas.

Não era uma rega:
era uma espécie de aspersão ritual,
para que o jardim não morresse.

E eu olhava para as plantas,
para o homem, para as gotas de
água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava
completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante
de cada janela, uns dizem que essas
coisas não existem, outros que só
existem diante das minhas janelas
e outros finalmente, que é preciso
aprender a olhar, para poder vê-las assim.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Dos anjos...



Acredito nos sonhos, nos amores, nas utopias. Acredito num amanhã possível, num futuro que pode ser hoje, que pode ser para todos e qualquer um de nós. Se assim não fosse, se minha crença não existisse, não teria força de escrever, de respirar, de viver.
Na minha vida (não sei se por coincidência, sorte, ou benesse de Deus) as coisas acontecem, as pessoas aparecem. É certo que algumas se vão, umas deixam saudades e outras não, mas há certas pessoas que funcionam como anjos da guarda, cuidam da gente com tanto amor que parece que somos pedacinhos dela.
E como retribuir toda a atenção, dedicação e amor que nos é presenteada? Não consigo imaginar como, nada que fizesse na vida poderia retribuir. De qualquer forma, duvido que esses anjos gostariam de receber algo em troca, não fazer por retribuição, fazem porque amam e isto basta.
Por isso acredito nos sonhos, nos amores, nas utopias, num amanhã possível, no futuro que pode ser hoje... Por causa desses anjos a vida passa a ter sentido, passa a valer à pena. Agradeço, pois hoje, por meus queridos anjos posso escrever, posso respirar, posso sonhar, posso, acima de tudo, viver e viver os sonhos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tristezas...

Estou com aquela sensação de que tem algo que está dentro de mim e quer sair, as vezes ele chega na garganta e parece que tem alguma conexão da garganta com os olhos. Digo isto porque na mesma hora os olhos ficam úmidos... Mas eu resisto, e esse algo desce, vai para o coração. Faz com que eu sinta ele bater e ouço cada retumbar, não sei o que é... Mas existe algo em mim. Quando menos espero meu corpo explode. Logo quando escrevo/grito. e assim que termino, não terminou. Sobra um nada em mim, uma sensação estranha... Aquela sensação que tem algo dentro de mim e quer sair...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sozinho


Suas frágeis e recolhidas asas
Estão simplesmente cansadas do puro céu azul
Você não precisa forçar o seu sorriso a ninguém
Não tem problema  sorrir... para si mesmo

Você não fala nada
Mas os seus olhos falam por si só
E é eu não sei direito o que

Tente enterrar, tudo bem
Não precisamos daquele céu azul
Se estivermos livres para nadar
Mesmo que você não fale nada sobre o passado
Estarei lá para te encontrar amanhã

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Das facilidades da vida...


Coisa difícil é quando fere a quem ama... Complicado ser imune ao próprio veneno... Todos os dias acabo por me ferir na simples tentativa de te ver, te ver crescer forte, linda, de ser independente.
Coisa difícil é amar alguém... Amar alguém é permitir que saia do próprio casulo, ver ser borboleta e bater as asas fortes e voar. È difícil ver quem amamos bater asas e voar, sozinhas.
Coisa difícil é amar a si próprio... Amar a si é amar por completo, mesmo a escuridão que se carrega. Amar a si é permitir-se voar mesmo temendo a própria escuridão, e assim poder sentir o vento no bater das asas.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Busca

Todos queremos que a vida tenha algum tipo de significado. Parece que quanto mais velhos ficamos, mais o procuramos. E é mais difícil de encontrá-lo. E alguns de nós procuram no lugar errado. Mas se nossas vidas não tem significado, o que podemos deixar àqueles com quem nos importamos? O que eu deixarei? Não sei qual lado é qual, quem é quem. Não há mais ordem.

sábado, 29 de outubro de 2011

João de Barro


O meu desafio é andar sozinho
Esperar no tempo os nossos destinos
Não olhar pra trás, esperar a paz
O que me traz
A ausência do seu olhar
Traz nas asas um novo dia
Me ensina a caminhar
Mesmo eu sendo menino aprendi
Oh meu Deus me traz de volta essa menina
Porque tudo que eu tenho é o seu amor
João de Barro eu te entendo agora
Por favor me ensine como guardar meu amor

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Raio


Cansei de dizer que algumas coisas são pra sempre, ou que seja eterno enquanto durar... Tenho a impressão que nossa amizade não será eterna, por que eterno é pouco pra medir tudo aquilo que sinto por você. Nossa amizade vai pra além do eterno, ultrapassa o nosso limitado conhecimento humano.
Não sou muito bom em escrever coisas, mas queria demonstrar aqui um pouquinho daquilo que me convoca a você, que nos faz ser quem somos, amigos, que não é pra sempre, porque pra sempre é pouco tempo pra nós.
Te amo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011


Há coisa que temos medo de partilhar, não por vergonha ou timidez, mas por nudez. 
Coisas que nos despem nos fazem igualmente temer. Mas num quarto escuro, despido, 
com aquela que aquece nossos corpos nossas certezas se perdem e partilhamos o que 
temo de melhor, a vida. 
Certamente tememos partilhar, afinal de contas nos ensinaram a temer viver. Pois que 
aceitemos o desafio de partilhar a vida, de sugar todo seu tutano aumentando, assim, 
nosso poder de vida

sábado, 15 de outubro de 2011

Um help plis...

Pois se o medo de ser traído ou do amor acabar me impedir de amar é porque nunca soube o que o amor significa.

Amar não é viver para outro, mas viver com o outro e a confiança nasce do compartilhar a vida com quem se ama. Confiança não é coisa que se tenha, ou que se dê, é resultado do compartilhar a vida.

Sem deixar vulgar qualquer uma dessas duas palavras, arrisque-se a amar e confiar. Ou seja, arrisque-se a viver com o outro, a experimentar, ser e criar o mundo com o outro.

Espero que essa receitinha o ajude.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Rabisco

Fui sendo desenhado. A lápis para poder apagar e fazer de novo. Me faço e me refaço, invento e reinvento muitas formas. Nunca achei um desenho que me agradasse totalmente, nem consegui acabar um sequer completamente. E permaneço só, com meus rabiscos, que nunca chegarão a ser pintura, mas com esperança de cor...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Dança e traços de chuva




Sei que existe algo em mim
Que aos poucos me consome e me mata
Mesmo assim sou teimoso
Insisto em renascer

Sei que existe algo em mim
Contra o qual tenho que lutar constantemente
Nem sempre venço a luta
Mas não desisto da trincheira

Talvez a solução seja admitir meu fracasso
Desistir de minha vitória
Me deixar morrer
E tornar-me sombra

Nesta vida renasci água
Dessas que escorrem pelo rosto
E por mais que meu corpo se torne muitos
Não mais serei seco

Espero que tenha uma nova chance
E mesmo que me perca
Posso sempre renascer
Lembrando tempos de água

sábado, 24 de setembro de 2011

Sobre o amor


“Que eu não veja obstáculos na união de corações sinceros…
O amor não se turva em águas turvas,
nem se curva ante a chuva…
Não…
É uma luz constante que a tempestade não altera…
É a estrela de toda a mão errante…
de brilho claro…
embora sem matéria…
Não é joguete do tempo,
embora a carne sofra o peso da sua foice…
Se isso for falso e provado também,
Eu não escrevi…
e nunca se amou ninguém.”

O homenzinho e seu deus


A cidade foi atacada por um deus enorme e descalço
que ninguém podia vencer.
Tombaram exércitos e quebraram-se espadas,
morreram centenas,
e nada o fazia parar.
Foi quando um homenzinho inofensivo baixou sua lança e disse à multidão
que venceria o deus sem matá-lo; iria derrubá-lo sem ferir.
O deus riu um riso despreocupado de deus e com um golpe tremendo do braço fez o homem voar;
esmagou o homem com os pés e triturou-o entre as coxas,
despedaçou-o com os dentes e banhou-o em sangue e urina;
cuspiu, xingou e provocou.
Quando o homenzinho mal se podia pôr em pé
o gigante deu-lhe para segurar sua própria espada divina
e ofereceu de peito aberto seu divino coração,
mas o homem abaixou a espada e aquietou.
“Covarde”, disse o deus, e atravessou o homem despedaçado
com a lança que o próprio homem tinha deixado para trás.
Ferido de morte, o homenzinho entoou baixinho uma canção blasfema,
“venha o que vier, amar-te-ei pela eternidade”.
O deus inclinou-se para ouvir e o homem sussurrou-lhe ao ouvido, “sou seu filho”, e morreu.

[Paulo Brabo]

Mosaico


Encontramos pessoas de todas as cores e estilos. Muita gente passa pela nossa vida e nem notamos. Mas tem algumas que chegam e deixam uma marca, não se sabe porque, mas ficam guardadas pra sempre, mesmo que estejam longe.

Algumas pessoas agente gosta tanto que vira pedacinho da gente... Sabe como é né?!

E nem tem como fugir... agora mais que amizade, se torna parte de uma família ou um corpo, sei lá, que é pra sempre....

Pra sempre um.

sábado, 17 de setembro de 2011

Celebração da voz humana [2]




Os índios shuar, chamados de jíbaros, cortam a cabeça do vencido. Cortam e reduzem, até que caiba, encolhida, na mão do vencedor, para que o vencido não ressuscite. Mas o vencido não está totalmente vencido até que fechem a sua boca. Por isso os índios costuram seus lábios com uma libra que não apodrece jamais.

Celebração da voz humana



Tinham as mãos amarradas, ou algemadas, e ainda assim os dedos dançavam, voavam, desenhavam palavras. Os presos estavam encapuzados; mas inclinando-se conseguiam ver alguma coisa, alguma coisinha, por baixo. E embora fosse proibido falar, eles conversavam com as mãos.

Pinio Ungerfeld me ensinou o alfabeto dos dedos, que aprendeu na prisão sem professor:

— Alguns tinham caligrafia ruim — me disse —. Outros tinham letra de artista.

A ditadura uruguaia queria que cada um fosse apenas um, que cada um fosse ninguém: nas cadeias e quartéis, e no país inteiro, a comunicação era delito.

Alguns presos passaram mais de dez anos enterrados em calabouços solitários do tamanho de um ataúde, sem escutar outras vozes além do ruído das grades ou dos passos das botas pelos corredores. Fernández Huidobro e Maurício Rosencof, condenados a essa solidão, salvaram-se porque conseguiram conversar, com batidinhas na parede. Assim contavam sonhos e lembranças, amores e desamores; discutiam, se abraçavam, brigavam; compartilhavam certezas e belezas e também dúvidas e culpas e perguntas que não têm resposta.

Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada.


Eduardo Galeano - O livro dos Abraços

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Me ajuda a olhar


"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.

Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!"


(Eduardo Galeano - extraído do Livro dos abraços)

Me ensina a te amar



O que eu fiz para você me amar tanto assim. Quem eu sou pra que te lembres de mim. Teu amor em todo tempo é fiel, mesmo que todo tempo eu não mereça. Me perdoa quando você falou e eu não ouvi, me perdoa, quando você me tocou e eu não senti, como pude não sentir. Me ensina te amar. Me ensina mostrar quanto eu te amo. Pra sempre vou te amar.

Tenho tão pouco pra te oferecer, mas tudo o que eu tenho é teu. Toda minha vida, num piscar de olhos, e uma canção pra dizer: Me ensina te amar. Me ensina mostrar quanto eu te amo. Pra sempre vou te amar...


composição: Filhos do Homem